Você conhece a “transcriação”?


Você se lembra de quando falei sobre as diferentes atividades dos tradutores? Existe uma atividade que eu deixei propositalmente de fora daquele artigo, já que queria escrever sobre ela especificamente: a transcriação.

Existe MUITA discussão na comunidade global de tradutores sobre as máquinas tomando os nossos lugares. Basta um sair artigo sobre um novo algoritmo de tradução para muitos profissionais acharem que estarão sem emprego no dia seguinte.

Falarei sobre as máquinas tomando o lugar dos tradutores em breve. Mas sou muito tranquilo em relação a isso porque sei que existem vários aspectos da tradução nos quais as máquinas estão muito atrás. O principal deles talvez seja a transcriação.

A maneira mais simples de se explicar a transcriação é usando a tradução literária como exemplo. Você já deve ter lido um livro de ficção que tenha sido traduzido para o português. Talvez esse livro tenha sido tão bem traduzido, que pareça ter sido escrito originalmente em português – e, de certa forma, ele realmente foi escrito em português.

Os tradutores literários não irão simplesmente traduzir uma história ao pé da letra. Eles precisam ler a história inteira com calma para entender todos os personagens e enredos. Se existir um livro anterior, é necessário lê-lo também. Depois fazem as primeiras versões da tradução. Logo em seguida, começam o processo de transcriação, onde muitas vezes precisam agir como autores da história, recriando piadas, expressões e até músicas em suas traduções.

Portanto, é possível dizer que a transcriação é um dos processos mais criativos da tradução. É nesse estágio em que o profissional precisa usar o máximo dos seus conhecimentos linguístico e cultural para criar uma história que faz sentido na língua traduzida, mas sem perder os elementos essenciais do enredo original.

Talvez não seja tão bagunçado, mas o processo é mais ou menos esse aí. 😉

Para mim, a transcriação é fascinante. Me especializo na tradução de jogos e posso dizer que transcriação é muito presente nessa área, já que quase todos os jogos apresentam personagens, enredos e tramas.

A transcriação está presente em quase todas as áreas da tradução, não somente na literária. Mas talvez nas áreas técnicas ela esteja menos presente, já que os termos são mais “fixos” e a própria natureza do conteúdo não exige muito esse tipo de processo (o que não torna a tradução técnica mais fácil).

Ainda acho que a transcriação é compreendida erroneamente por muitos profissionais. Vejo muitos colegas saírem correndo quando o cliente fala essa palavra. Talvez seja porque a transcriação seja vista somente como um processo intelectual e complicado. De fato, ela é um processo intelectual e complicado, mas acredito que ela possa ser uma ferramenta que na verdade facilita a tradução quando é usada de maneira correta.

O Upwork é o site de onde consigo a maior parte dos meus clientes. Muitas vezes, vejo um cliente postando um job lá procurando por “um tradutor que não somente traduza o conteúdo, mas que também o recrie e o faça parecer como se tivesse sido escrito em português.”

Ou seja, muitas vezes o cliente não saberá que esse processo se chama “transcriação”. Então, cabe a você, profissional da área, saber quais serviços você oferece. Dessa forma você poderá ajudar mais seus clientes que talvez não saibam exatamente o que necessitam que o tradutor faça.